sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Nicholas Ganz analisa, em livro, o mundo do grafite

Nicholas Ganz analisa, em livro, o mundo do grafite
Charbelly Estrella*, JB Online

"RIO - A empreitada de um livro/catálogo sobre o grafite, produzido nos cinco continentes, é, por si só, um audacioso projeto artístico. Assim é o livro do também artista de grafite, Nicholas Ganz, O mundo do grafite (Trad.: Rogério Bettoni. Martins Fontes. 376 pag., R$ 79,80), lançado agora no Brasil.

Ao apresentar o breve histórico do grafite no mundo contemporâneo, o autor/artista destaca a extensão do fenômeno, ao mesmo tempo em que desenha uma espécie de rota do estilo – a origem na América, passando pela Europa, até sua disseminação pela Ásia e Austrália. Nesse passeio global identifica-se um neocosmopolita – justamente o grafiteiro. A identidade desse personagem urbano e poético é uma provocação visual. É nele que Ganz se ancora para contar uma história visual contemporânea do grafite. O estilo de vida é a força motriz dessa dinâmica de confronto visual com a cidade-mundo.
O livro levanta três questões que parecem efetivamente colocar a pesquisa sobre o grafite em destaque: a envergadura da sua produção pelo mundo, o que justifica um olhar mais detido e crítico sobre o fenômeno; o desafio contundente de reunir, catalogar, nomear e classificar a produção de grafite, um garimpo de imagens desgastadas, perdidas e quase apagadas; e, por fim, a perspectiva autoral de uma arte que, a princípio, cumpre uma encenação de assinaturas codificadas e intervenções às escondidas.
Com a obra em mãos, a grandiosidade do trabalho chama a atenção: o livro é capaz de apresentar uma “espécie” de estado da arte dos livros sobre grafite. Com a obra em mãos, a provocação está feita.
Diante de todas as imagens reunidas e de seus autores, a pesquisa de Ganz reflete o cuidado e o olho apurado, que até agora apenas o artista parece ter. E consolida, num álibi difícil de negar, o problema que define a dinâmica produtiva do grafite – o desafio de grafitar, ou ainda, de que modo o grafite assume a cidade e sua efervescência como um problema criativo. Assim forja-se uma habilidade para estranhar o cotidiano urbano vivido e, com essa estratégia poética, promover uma forma de conhecimento da cidade. E diante desse livro – uma forma de ver o mundo.
A linguagem arranhada, as imagens espalhadas e o peso das tintas apontam um all-over global, equivalências de problemas e riscos, entrecruzamento de imagens e traços, interfaces visuais e a marca de suas peculiaridades autorais. Um tipo de rede de imagens urbanas, que se equivalem e não se repetem. Essas visualidades funcionam como “reenvios” contínuos de sentidos – códigos compartilhados como estratégia para dar conta da vida contemporânea.
Essa dinâmica artística endossa a relação intensa e intencionalmente “promíscua” que a arte contemporânea aspira ter com a vida: viver seu fluxo, cumprir seu tempo. Da mesma maneira que forja um modo genuíno de investigação, tomando as ruas, percorrendo os cantos, arranhando suas arestas, subvertendo os vãos da modernidade, estabelece uma forma de mapa visual da cidade, desenhado e rabiscado para dar ao espaço urbano uma outra chance. Nesse sentido, produz-se uma investigação contínua e produtivamente arriscada do que é a cidade contemporânea e quais são seus problemas intrínsecos. O grafite produz um modo de grifar essa urbanidade, e com engenhosidade, torna a vida possível. Ao passear pelas “vias” do livro de Ganz, a cidade é tão inevitável quanto o próprio motivo do livro.
E, por fim, a mais delicada e importante questão para entender o estado da arte – a aposta na escrita. A premissa de que “grafiteiros” são escritores enuncia a escrita como exercício da autoria e, indubitavelmente, um ato poético. Aí está o debate sobre o sujeito do grafite e sua condição essencial de autor. O estilo da arte reflete o estilo de vida. Grafitar é uma forma radical de viver – este é o código fundador do grafite. É nessa articulação do corpo que busca a cidade, que a enfrenta e ali, sem cerimônias, impõe uma marca “eu estou aqui, pinto e vivo aqui”. Cabe a pergunta: por que então se faz grafite? Porque a cidade é uma convocação.
A qualidade pública do grafite o coloca à disposição da cidade, dos olhares e de outras intervenções. E endossa a cidade como campo de ação e reação, palco desse curto-circuito de racionalidades e porosas resistências, do confronto de estilos de vida, de identidades picotadas e atravessadas. Como diz, no livro, Loomit (artista alemão da old school): “Os grafiteiros têm muito pouco em comum com a imagem clássica do artista que trabalha sozinho em seu estúdio para apresentar suas criações a um público relativamente seleto em alguma galeria”. E continua: “Cada rabisco da obra de um grafiteiro é público. E ele não atinge apenas os cerca de 30 por cento da população que se interessam por pintura, mas praticamente todo o mundo”. É nesse sentido que o artista do grafite tem o espírito do tempo, pois funda uma nova dinâmica de pesquisa artística – sem planos nem propostas estruturadas, assume-se como parte real da dinâmica que tenta contraditoriamente reproduzir e romper.
São essas questões que permeiam o passeio visual que o livro-obra de Ganz nos oferece – para olhar e pensar, no grafite, na cidade, nas coisas e pessoas do mundo. "

*Pesquisadora do grupo de pesquisa Comunicação, Arte e Cidade (CAC).